"Globalismo

(in ARQUITECTURA 21, Fevereiro de 2009)

Em cada momento o arquitecto desenha, sintetizando toda a sua experiência. A sua cultura. Os projectos e depois as obras são por isso depósitos e testemunhos fiéis de ideias e intenções. São materializações de tendências, de valores, de construções mentais relativas ao ser humano. Ao seu ser, ao seu modo de habitar, à sua economia, historia, clima ou religião. Olhando para o desenho dos edifícios, mas também para o desenho das urbes, podemos compreender muito sobre uma sociedade, sobre o seu tempo, as suas inquietações.

A arquitectura é por isso, a cada momento, uma reflexão muito interessante de cada comunidade e dos seus valores. À procura dos valores que norteiam os nossos tempos e da reflexão que a arquitectura contemporânea faz sobre deles, fomos, neste primeiro número da arquitectura 21 à procura das respostas pela “mão do arquitecto”.

Haverá um conjunto de pré-concepções do arquitecto ou da sua cultura arquitectónica que pré-determinam a forma de um edifício, determinando até uma dada linguagem? Ou pelo contrário, a cada novo projecto, novo lugar, novo programa, o arquitecto recomeça, reinventa-se, buscando a mais adequada paleta, a mais adequada linguagem para “o” edifício em particular?

Depois dos momentos históricos mais claros do modernismo ou do pós-modernismo, depois das interpretações locais minimais, teremos nós atingindo uma linguagem arquitectónica da globalização? Será ela mimética com a tirania da imagem, frenética, volátil, ligeira, “pret à manger”, efémera? Ou pelo contrário será o lugar seguro, intemporal, perene, onde as pessoas encontram segurança, estabilidade, referências?   

A linguagem dos tempos em que americanos e chineses comem os mesmos hambúrgueres e vêm os mesmo filmes ainda é subordinada ao lugar, às especificidades de cada cultura, ou, como já defendia Mies, é alheia a cada lugar e às suas especificidades como se de uma peça de design se tratasse?

Estarão também os arquitectos em buscas de ideias mais claras, de correntes organizadas de valores? Andaremos também numa deriva, experimentando matérias, soluções e linguagens? A tecnologia e as suas fantasias são um instrumento e uma ferramenta de uma ideia de arquitectura ou uma linguagem em si mesmas? Qual é o lugar da arquitectura hoje?

Em que “ismo” estamos? Em buscas das “perguntas certas”, como escrevia Manuel Tainha, foi essa a pergunta que a a21 fez a vários arquitectos.

 

 

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