"Crise

(in ARQUITECTURA 21, Março de 2009)

Dicionário online da Porto editora

“crise”

do Lat.  crise < Gr. krísis
s. f.,

alteração para melhor ou para pior no curso de uma doença;

ataque, acometimento, acidente;

momento perigoso ou decisivo de um negócio;

perturbação que altera o curso ordinário das coisas;

situação de um governo que encontra dificuldades muito graves em se manter no poder.

— moral: luta interior entre dois sentimentos;

— ministerial: espaço de tempo entre a queda de um ministério e a constituição de outro que lhe sucede.

Nesta edição de Março de 2009, quando o Mundo inteiro está atarantado a tentar percepcionar A CRISE, as suas causas, consequências, contornos, soluções, oportunidades…,  fomos em busca dos seus traços no território. Olhámos a rua e questionámo-nos sobre como é que se habita um Mundo com poucos meios. Como se faz cidade na escassez? Como é que se garante o direito constitucional à habitação dos cidadãos portugueses quando temos o dobro das casas de que precisaríamos mas cerca de quatrocentos mil portugueses a viverem em condições degradantes e sem acesso à habitação condigna? Fomos com Pedro Bingre visitar a galinha dos ovos de cimento, perguntámos a Isabel Guerra como sairíamos daqui. Guiados por Miguel Graça e François Pecherau demos a volta aos arrabaldes de Lisboa e ao projecto “underconstruction”. Olhámos a Sul e fomos pela mão de Joana Cameira até à Somália para perceber como se sobrevive em campos de refugiados tornados casa. Fomos com Maria Moita perceber como se fazem abrigos das acções (de arquitectura) Humanitárias. Olhámos para Nascente com a Inês Moreira e o Gonçalo Canto Diniz à procura das formas com que Israelitas e Palestinianos assinalam a terra (prometida) usando o urbanismo, os colonatos e os campos de refugiado, como armas de guerra e de confrontação politica. Lá como cá, os mais frágeis são sempre os que mais sofrem, com a CRISE.

Ao governo de José Sócrates, que procura fazer grandes investimentos para relançar a economia nacional e que se queixa de que só ouve descrições da crise mas não propostas de solução, aqui fica uma proposta em forma de repto: em vez de canalizar grande parte dos recursos para as grandes obras públicas, de urgência ou pertinência questionável, injectando dinheiro apenas em meia dúzia de grandes empreiteiros, alguns dos quais, porventura estrangeiros, talvez pudesse o estado português afectar os recursos (parcos) dos contribuintes portugueses para a resolução dos problemas da habitação, cumprindo assim uma missão primeira e constitucionalmente definida do estado, injectando dinheiro nas pequenas e médias empresas, dinamizando o mercado de arrendamento e usando o dinheiro de todos para melhorar, de facto, a vida dos mais carenciados. O estado social cumprindo, enfim, 35 anos depois do 25 de Abril, a sua função de distribuidor da riqueza, salvaguardando níveis de dignidade mínimos aos que por si só não conseguem lá chegar. Ou depois de toda a crise, das falências corruptas da banca, das intervenções estatais para a salvar, com o dinheiro e o endividamento futuro de todos, ainda há legitimidade para deixar 5 % da nossa população à margem da dignidade na habitação, enquanto se faz o TGV?

 

 

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