"O caminho das pedras

(in ARQUITECTURA 21, Março de 2009)

Estávamos em Zagora, Sudoeste do deserto de Marrocos, próximos da fronteira com a Argélia. Já passava da uma hora da manha. Enquanto os mecânicos se atarefavam a arranjar-nos o Jeep, Mamado fazia conversa de circunstância comigo. Trivialidades no principio, para uma aproximação mais comercial. Quando quis ser mais universalista falou-me dos Portugueses que conhece, os que frequentaram a sua oficina e os que vê na televisão. Arrisquei a perguntar-lhe como ia o negócio com a crise. No meio das poeiras do deserto a resposta foi cristalina: “ A crise é dos americanos e dos europeus. Para eles é que há novidade. Para mim está igual ao que sempre foi. Sempre vivi em crise!” Ri-me. Porque me revi absolutamente na sua tese. A história recente de Portugal, que é a memória vivida que tenho, foi sempre em ambiente de crise: foi a austeridade a que nos submeteram os primeiros governos constitucionais do pós 25 de Abril, com a famosa máxima do “apertar o cinto” de Mário Soares, foram as restrições impostas pelo FMI, foram os sacrifícios impostos pelos governos de Cavaco Silva por causa da crise Internacional, as dificuldades do Governo de Guterres para que cumpríssemos os critérios de convergência para a adesão ao Euro, o não cumprimento do défice nos governos de Barroso e Ferreira Leite, o desvario nos meses do consulado de Santana Lopes e agora a crise do sub-prime americana que, num abrir e fechar de olhos se alastra ao Mundo, mostrando primeiro aos americanos, mas logo de seguida a todos nós, o preço altíssimo que todos vamos pagar pelas politicas expansionistas da administração Bush. Mostrando também a insustentabilidade  do descontrole e da mais absoluta impunidade em que o sistema financeiro mundial, mas também e de que maneira, o português, viveram nos últimos anos. Mostrando por fim que a miragem da abundância material em que o mundo ocidental vivia, a crédito diga-se, sempre na expectativa de lucros futuros e de valorizações altíssimas dos activos, nomeadamente imobiliários, era uma absoluta e gigantesca fraude social.

Apenas vinte anos volvidos sobre a queda do muro de Berlim, e do fim simbólico do comunismo, assistimos incrédulos, ao sucumbir, ainda mais desamparado, do sistema capitalista. Allan Greenspam, o responsável pela reserva federal americana durante três décadas, o arauto do capitalismo sem freio e sem dúvida o rosto desta crise, defendeu nos últimos dias as virtudes da nacionalização da banca. Se precisássemos de uma certidão de óbito do capitalismo, podíamos considerar estas declarações do Sr Greenspam. O capitalismo como sistema de regulação económico capaz de gerar proventos e de garantir de forma justa a distribuição da riqueza entre as pessoas gerando bem estar social e progresso, morreu. Antes dele tinha morrido o comunismo. A social democracia europeia, assente na ideia do mercado livre mas regulado e profundamente estruturado num estado forte que garante a regulação económica e a salvaguarda universal, até dos mais desfavorecidos, nomeadamente nas áreas da segurança social, saúde, educação e habitação, parece ser o único modelo que sobrevive à erosão dos tempos.

È neste quadro geral que Portugal disputa o seu mais agitado ano politico de sempre com três eleições: europeias, legislativas e autárquicas. Toda a gente já deu mostras de querer participar na enorme intoxicação que ai vem. A justiça desata a libertar informações sobre casos que há anos estavam na gaveta, a igreja permite-se insinuar-se no território da politica do estado (laico por imposição constitucional) em nome da defesa da sua ideia de sexualidade sâ, quando os seus dignatários são, também por imposição de regra, selibatários; os partidos políticos agitam-se na discussão da espuma dos dias, …, mas verdadeiramente o que está por responder é como é que vamos reorganizar o país, a Europa e o mundo na ressaca desta crise. 

Agora, como em todos os momentos de crise, quando tudo está em aberto, é precisa inteligência na leitura dos dados e imaginação na busca de novos caminhos. Ideias precisam-se! 

 

 

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