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“"A
Imaginação ao Poder”
(in ARQUITECTURA 21,
Abril de 2009)
Na
antiga fábrica de “Braço de Prata”, para onde há já muitos anos corre um
plano de Renzo Piano, e em Alcântara, para onde corre o plano “Alcântara
XXI” começado por Manuel Mateus com Frederico Valsassina e agora com Manuel
Fernandes de Sá, nasceram, dois projectos de ocupação efémera dos espaços,
que se dirigem às actividades criativas ou culturais e que são suposto durar
enquanto os projectos imobiliários, ditos sérios e economicamente
interessantes – para os seus promotores – não são construídos.
Por
ironia suprema, por poesia revolucionária ou porque tudo o resto falhou, um
conjunto de usos “marginais”, criativos, culturalmente efervescentes,
apoderaram-se de espaços devolutos ou em declínio económico abrupto na
cidade e sequestraram-nos para a imaginação, enquanto a burocracia, a
incompetência e a nossa ancestral inépcia para fazer, garantem o tempo
necessário para que os projectos se afirmem. Como se gritava em Maio de 68
pelas ruas de Paris, a imaginação está de volta ao poder em Lisboa, pela mão
destas iniciativas que “subversivamente” ocuparam estes lugares expectantes.
Tratam-se
de lugares recuperados à falência económica da cidade, com a maior apetência
imobiliária possível, junto ao rio, para onde se projecta o metro quadrado
mais caro de Lisboa, seguramente acima dos 5000 euros /m2, mas que estão
reféns da lentidão administrativa, dos pareceres dos organismos, do
cinzentismo manga de alpaca, dos negócios, das eleições, dos compromissos,
do mercado, das circunstâncias, do tempo, de tudo … mas não acontecem (até
agora).
E no
entretanto, como cogumelos que irrompem nos interstícios húmidos e férteis
das culturas, surgem duas iniciativas de promotores privados a “LX Factory”
da “Mainside” e a “Fábrica de Braço de Prata” da “livraria Eterno Retorno”
que encontram novos usos para estes espaços e lhes restituem uma
centralidade e um valor tremendos, promovendo apropriações mais informais e
intelectualmente qualificadas, propondo-se albergar gente e actividades
criativas.
Artes
plásticas, livros, música, vídeo, cinema, jogos multimédia, arquitectura,
design, cruzam-se nestes espaços “novos” na cidade, misturando tribos e
raças, betos e punks, artistas e nerds, técnicos e boémios, tias e
suburbanos, cotas e imberbes, todos juntos num lugar de culto, numa espécie
de resistência da imaginação e do saber.
O
insólito, mas poético, é que estes projectos criativos, informais, modernos,
só chegam a ver a luz do dia porque a burocracia administrativa lhes
garantiu a janela de oportunidade necessária, enquanto o imobiliário não
avança, para que eles floresçam. É, no fim de tudo, como se a burocracia,
arrependida de todos os males que nos tem causado, redimindo-se da sua
culpa, nos abrisse as portas a novos caminhos: à cultura, à imaginação, ao
valor acrescentado, à massa cinzenta, enquanto boicota e detém a especulação
imobiliária.
O poema
só termina com a generosa ideia de que esta estimulante actividade cultural
da Lisboa de hoje – A fábrica de Braço de Prata, onde se sucedem exposições
e livros e concertos - era uma fábrica de armas.
Por fim
a cultura sucede às armas.
Por fim
estamos armados.
Por fim
começamos a ganhar a guerra. |