"Cidades Criativas

(in ARQUITECTURA 21, Abril de 2009)

Neste mês em que o Pais comemora 35 anos de liberdade e quando a Europa celebra o “Ano Europeu para a Criatividade e Inovação” a “Arquitectura 21” dedicou o seu tema de capa às “cidades criativas”. O conceito, que a própria União Europeia estimula através do programa “URCAT II”, assenta na transformação das chamadas “indústrias criativas” em “valor acrescentado”. A cultura, a arte, a ciência podem, se articuladas com estratégia, ser um forte instrumento de geração de riqueza. 

Em Portugal, um conjunto de pequeno e médios municípios - Óbidos, Portalegre, Guimarães, Montemor-o-Novo e Montemor-o-Velho, lideram este processo, integrando a rede “Clusters Criativos em Áreas Urbanas de Baixa Densidade” e dando contributos para o “Livro Verde para as Indústrias Criativas” (http://www.create2009.europa.eu). Juntos procuram criar oportunidades económicas em lugares que de outro modo estariam mais adormecidos. E de repente, descobre-se que no meio do Portugal dito interior, mas também por isso, mais próximo do centro da Europa, se desenvolve em Portalegre, um impressionante projecto de realidade virtual - integrado nesta rede criativa – que colabora com os mais sofisticados laboratórios do Mundo na produção de modelos tridimensionais virtuais para aplicações tão diversas como a pedagogia, a medicina, o design ou a indústria. Trata-se do International Center for Technology in Virtual Reality : ICT-VR. (http://www.ictvr.org) e é um bom exemplo de onde o conceito nos pode levar. 

O novo valor económico é criado com inovação tecnológica, criatividade artística e boa gestão empresarial dos produtos culturais. Estes são em regra ágeis e rápidos a reagirem a novas tendências e destinam-se cada vez mais a pequenos mas múltiplos nichos de mercado que podem estar localizados em qualquer parte do Mundo. Para lá chegar, para ganharem escala, notoriedade e massa critica, os produtores – em regra micro e pequenas empresas – precisam de se associar em rede. Partilhando ideias, soluções, clientes, equipamentos, espaços, pessoal, estratégias de gestão, marcas e marketing. Só assim se conseguem impor face às hegemónicas mas pesadas corporações que dominam os canais de produção, divulgação e venda das ideias.  

Michel Porter, na sua definição de “business cluster” classifica-os como “concentrações geográficas de empresas relacionadas, juntando fornecedores, prestadores de serviços, clientes e instituições afins - como universidades, agências ou associações comerciais – competindo entre si, mas também cooperando.” 

O conceito de cidade criativas procura aplicar esta visão ao desenvolvimento do território, tendo a criatividade como indutor da economia e assumindo que na competição global que as cidades fazem entre si, as actividades culturais e criativas, podem ser o principal instrumento de organização do território, atraindo habitantes e visitantes, qualificando as suas experiências e melhorando a sua qualidade de vida.  

Como é que conseguiremos ser melhores, melhorar os nosso habitats? Captar investimento, quadros qualificados, ou eventos para as nossas cidades? Como poderemos lidar com a rapidez e a vulatilidade da globalização?  

Nesta edição da arquitectura 21 fomos à procura de respostas indo ao encontro da criatividade onde ela organiza espaço e territórios: a One-North (Singapura) conhecer a proposta de um espaço urbano criativo projectado por Zaha Adid, a Berlim visitar a “Betahaus”, a Vila do Conde espreitar o “Centro da Memória” desenhado por Manuel Maia Gomes no âmbito do Departamento de Projectos e Estudos desse municipio, a Coimbra ver a “A Casa das Caldeiras” de João Mendes Ribeiro que irá albergar a Escola de Artes da Universidade, a Guimarães Capital Europeia da Cultura 2011 para saber o que se faz no “Centro Cultural de Vila Flor”  pela letra do seu director, José Bastos. Carlos Martins puxou-nos à realidade (mesmo que por vezes subjectiva) da economia, e deixámo-nos levar pela arte de Maria Fazenda do Mar entre ruas e lugares distantes. Visitámos a re-invenção criativa de Óbidos, guiados pelos seus protagonista. Depois voltámos a Lisboa para ficar à escuta das ideias de Helder Costa de “A Barraca” e de Guta Moura Guedes, da “Experimenta Design”.Mas também quisemos ouvir João Brites e de Rui Francisco de “o Bando”, que em Palmela alcançaram novas perspectivas. Entrámos na “LX Factory” de Alcântara para saber que contaminações de ideias se geram num espaço que junta empresas criativas e fomos massajar os sentidos à “Fabrica de Braço de Prata” onde nos sentámos a conversar com Nuno Nabais entre um concerto, uma exposição, um copo de vinho tinto e muitos livros. Por fim, sentámo-nos no Jardim Botânico com Manuel Mateus para ficar a conhecer o seu novo “Plano para o Parque Mayer e a Politécnica” e saber das suas opiniões sobre o país que somos e a arquitectura que temos – um retrato para a capa, porque a criatividade está em cada um de nós.

 

 

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