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“"Lx
Factory”
(in ARQUITECTURA 21,
Abril de 2009)
Nos
terrenos para onde Manuel Mateus e Frederico Valsassina começaram por
desenhar o plano “Alcântara XXI”, agora a cargo de Manuel Fernandes de Sá,
existem diversos espaços industriais devolutos ou desinteressantes para as
funções originais, que aguardam por autorização para edificar novos
empreendimentos imobiliários.
No
entretanto, enquanto não chega a autorização, (que pode demorar uns meses,
ou alguns anos: 5, 10,… - ninguém sabe!), uma empresa de gestão de activos,
a Mainside SGPS, alugou alguns dos edifícios, anteriormente ocupados pela
gráfica Mirandela, para ai albergar um “cluster de empresas criativas”
designado de “Lx Factory”.
O
projecto lançado em 2007 tem essa marca identitária do efémero. Trata-se de
um lugar cheio de memória, marcadamente eficaz e industrial, constituído por
grandes edifícios de alvenaria de pedra com estruturas portantes periféricas,
pontuados com pórticos metálicos e/ou de betão armado onde convinha, em
função do elevado peso das máquinas da gráfica que se distribuíam pelos
vários pesos. Este tipo de ocupação original determinou a existência de um
pé-direito generoso e de lajes, entre pisos, de grande resistência mecânica,
que agora são uma interessante oportunidade de apropriação livre, facilmente
transformáveis em qualquer função urbana: escritórios, ateliers, habitação,
escolas ou hotelaria. Seria virtualmente possível albergar qualquer destas
funções nestes edifícios.
Toda a
apropriação do edifício, decorre, como explica a arquitecta gestora do
espaço - Filipa Baptista da Mainside - desta característica temporária, que
todos os inquilinos aceitam contratualmente e que salvaguarda que a qualquer
momento, face ao licenciamento do “Alcântara XXI”, todos os espaços terão
que ser libertados.
O lugar
foi por isso tratado com simplicidade e descrição pelos arquitectos João
Alves e Ana Pinto, mantendo a sua essência original, os seus volumes, a
fenestração, a materialidade, mas acrescentando cor e alguns apontamentos de
desenho mais cuidado numa ou outra caixilharia, ou nas paredes divisórias de
um corredor. Em todo o edifício é patente a preocupação da parcimónia de
recursos, dando origem a interessantes reutilizações de portas e elementos
construtivos que existiam pela fábrica. Estas velhas peças que agora
readquirem significados e funções, emprestam, por seu lado, uma particular
patine de memória e textura a todo o conjunto, conferindo-lhe verdade
tectónica e a dignidade que o tempo reserva às coisas puras e genuínas.
Despido
de ornamentos e artificialismos marginais ou supérfluos, o edifício mostra-se
agora na sua forma mais bela e pura, disponível para ser usado. Provocador,
sensual e disponível, aceita o seu lugar de suporte discreto, das várias
assinaturas (tags) de criatividade e de singularidade de cada um dos seus
ocupantes.
Os
traços de identidade e de contemporaneidade são assim assinalados pela cor,
pela iluminação artificial, ou pela materialidade dos elementos novos –
sobretudo das paredes divisórias, colocadas a dividir as grandes naves
originais - que eram em regra espaços amplos e não compartimentados,
divididos agora em pequenas áreas de trabalho, individuais, alugáveis às
várias empresas que ali se querem instalar.
Por isso,
embora os espaços comuns tenham um certo sentido unitário, os espaços
individuais, dentro de portas, são arranjados com grande liberdade
conceptual e criativa pelos seus próprios ocupantes, ou por alguém, por eles
convidado a faze-lo.
As
funções que ali encontraram lugar são bastante diversas, indo desde o
design, à publicidade, ou à arquitectura, até aos jogos virtuais, cinema,
livrarias, ou aos “showrooms” de marcas mais conceituadas. “Start-ups”,
micro-empresas, ou empresas mais sólidas e com um maior número de
colaboradores, encontraram forma de se alojar, porque as grandes naves
permitem, com muita facilidade, moldar as paredes divisórias às necessidades
de espaço da empresa.
O espaço,
globalmente considerado, peca ainda por ser tímido a promover o encontro
entre os diferentes ocupantes. Há poucos espaços de contaminação de ideias e
de encontro ou simples conversas. Nesta área assinalam-se os interessantes
espaços cobertos de restaurante e cafetaria e as respectivas esplanadas ao
ar livre, mas fica a apetecer encontrar mais espaços que convidem ao
encontro informal e casuístico entre corredores ou no meio de algumas salas,
que promovam a troca de ideias de forma informal ou espontânea, enquanto se
fuma um cigarro ou se descontrai um pouco. Este mesmo raciocínio é valido
para o mobiliário colectivo que escasseia no edifício – interior e exterior
- e para a falta que faz a remodelação dos espaços verdes contíguos, (alegadamente
em curso) e que muito poderão contribuir para essa função de contaminante
social.
Por
outras palavras, a qualidade e o potencial do espaço privado ainda não é
acompanhada pelo conforto e qualificação do espaço colectivo, o que
naturalmente encontra fácil explicação nas particularidades efémeras da
intervenção e também no modelo do negócio que consiste no aluguer dos
espaços privados, que assumem por isso a primazia dos recursos e da atenção.
Os
promotores garantem tratar-se de uma caso interessante de sucesso, atestado
pelo facto de estarem já a ocupar um piso superior que ainda estava vago.
Segundo Filipa Baptista a taxa de ocupação actual supera os 75%, estando
para breve a instalação de diversas novas empresas, nomeadamente da Livraria
“Ler devagar” que se junta a outras marcas de referência como a “Paris7” ou
da “Biodroid”.
No final
de Maio, os promotores repetem a iniciativa do “open-day”, abrindo todo o
espaço ao público, permitindo que se transforme, por momentos, numa grande
galeria da criatividade. Nesse período e tal como aconteceu com a
interessante exposição que albergou de Peter Zumthor e em outras iniciativas
abertas ao público, a LX Factory presta um importante serviço público à
cidade de Lisboa, contaminando-a com energia criativa, rompendo preconceitos
e agitando mentes.
Este é,
por todas as razões, um lugar a visitar. (www.lxfactory.com) |