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“"Parque
Escolar EPE”
(in ARQUITECTURA 21,
Maio de 2009)
Fonte: ministério da Educação
/ “Parque Escolar EPE”
Desde que foi criada, pela Resolução do
Conselho de Ministros n.º 1/2007 de 3 de Janeiro, a “Parque Escolar, E.P.E.” é
a empresa responsável pela concretização do “Programa de Modernização das
Escolas do Ensino Secundário”, que pretende chegar a 332 escolas até ao ano
2015. O programa começou por identificar 4 escolas piloto: duas no Porto –
Escola Secundária Rodrigues de Freitas e Escola Secundária artística Soares
dos Reis - e duas em Lisboa – D. Dinis e D. João de Castro - cujas obras
ficaram concluídas em Setembro de 2008. Hoje há cerca de 107 escolas já
intervencionadas ou em curso, no que é o maior programa de desenvolvimento
escolar lançado em Portugal. A escola, paixão platónica de outros governos,
está finalmente a ser reabilitada.
No ano lectivo 1977/78 o ensino secundário
português – público e privado (incluindo profissionalizante) – tinha 133 mil
alunos. No ano lectivo 1995/96 teve 477 mil alunos. A partir desse ano houve
uma forte redução do número de alunos que correspondeu a uma alteração
demográfica no pós 25 de Abril, determinando um número de 344 mil alunos no
ano lectivo 2005/06. Olhando também a evolução da distribuição dos alunos
entre a via ensino e as vias profissionalizantes conclui-se que passou de
80% - 20% em 1977/78, para 62% - 38% em 1995/96, chegando nos últimos 6 anos
aos 55% - 45%.
Mais de 75%, das actuais 460 escolas com
ensino secundário, foram construídas nos últimos 30 anos, dos quais 46%
construídos na década de 80. Este dado sublinha que o esforço de
universalização do ensino secundário da democracia portuguesa assentou,
sobretudo, na construção de um grande número de escolas espalhadas por todo
o território nacional. De uma forma geral elas são construções pobres,
desconfortáveis e de arquitecturas muito pouco qualificantes. A escassez de
recursos e a urgência de albergar um número crescente de alunos, na década
de oitenta, levou à concentração do esforço nas salas de aulas e demais
espaços críticos: secretaria e refeitório e, em alguns casos, também nos
ginásios. Porém faltam a esses lugares atributos arquitectónicos que
qualifiquem a experiência espacial dos utentes. Falta conforto térmico e
acústico. Falta muitas vezes segurança e muitos programas funcionais, como
sejam os ginásios, laboratórios, bibliotecas, salas de estudo, salas de
informática, espaços de representação artística, mas sobretudo faltam
lugares de cidadania. Lugares de encontro e de convívio. Falta espaço
público. De todos e para todos.
Aproveitando a diminuição de alunos, e a
urgência que se coloca de investimento público por causa da crise, o
“Programa de Modernização das Escolas do Ensino Secundário” traçado em 2007
e agora corrigido pretende:
Requalificar e modernizar os edifícios
escolares, corrigindo problemas construtivos existentes, melhorando as
condições de habitabilidade, adequando os espaços e modernizando os
equipamentos dos laboratórios e oficinas, bibliotecas e centros de recursos,
redes e salas de tecnologias de informação e comunicação, secretarias e
zonas de recepção ao público em geral; garantindo espaços de trabalho e de
pausa para o corpo docente, espaços para convívio e trabalho informal de
alunos; garantindo a flexibilidade e a adaptabilidade dos espaços à
diversidade curricular e à evolução das práticas pedagógicas; garantindo a
eficiência e a auto-suficiência energética dos edifícios escolares.
Abrir a escola à comunidade, recentrando a
escola nos meios urbanos em que se insere, criando condições para que, nos
horários pós ou extra-escolares, os edifícios possam ser utilizados pela
comunidade no âmbito das actividades associadas à formação pós-laboral, aos
eventos culturais e sociais, ao desporto e ao lazer.
Criar um modelo de gestão, manutenção e
conservação dos edifícios ao longo da sua vida útil que, após a operação de
requalificação, permita fomentar a correcta utilização das instalações e dos
equipamentos, formando, acompanhando e responsabilizando os utilizadores;
garantir a plena utilização das instalações; responder de forma eficaz e
eficiente às intervenções pontuais de reparação ou às intervenções
programadas de conservação e manutenção.
A escolha e a prioridade das intervenções tem
vindo a ser definida pelas direcções regionais de educação, Direcção
Regional de Educação de Lisboa e do Norte em articulação com a “Parque
Escolar”, tendo em conta o grau de degradação dos edifícios ou a carência de
instalações em função do número de alunos actuais e previstos.
A crise financeira e económica mundial veio
dar um forte impulso ao programa. A cimeira de Washington de 15 de Novembro
2008 e o Conselho Europeu de 11 e 12 de Dezembro, aprovaram medidas de
relançamento das economias através de procedimentos acelerados de
contratação publica de projectos de grande envergadura, que permitem
rapidamente catalisar a circulação de dinheiro nas economias. Nessa medida o
Conselho de Ministros Português de 13 de Dezembro de 2008 aprovou a
“Iniciativa para o Investimento e Emprego”, que se traduziu no Decreto-Lei
34/2009 de 6 de Fevereiro que estabelece medidas excepcionais de contratação
publica a vigorar entre 2009 e 2010, para a modernização do parque escolar,
promoção das energias renováveis, eficiência energética, redes de transporte
de energia, modernização da infra-estrutura tecnológica – redes de banda
larga de nova geração - e reabilitação urbana.
Desde a sua criação, em 21 de Fevereiro de
2007, a “Parque Escolar” sempre beneficiou de um regime de excepção na sua
forma de contratação publica, concedida desde logo pelo seus estatutos
fundadores, Decreto Lei 41/2007, depois pela Portaria 193/2008 de 20 de
Fevereiro, depois pelo Decreto-Lei n.º 25/2008 e finalmente pelo Decreto-Lei
34/2009 de 6 de Fevereiro.
Este enquadramento qualificou a “Parque
Escolar” como a principal arma do governo para intervir na economia
promovendo a rápida circulação de dinheiro público e o emprego. Estima-se em
cerca de 20.000 postos de trabalho criados pelos 100 escolas em processo de
reabilitação. Promover a economia e o emprego ao mesmo tempo que se resolve
o principal atraso estrutural do pais – a educação – é a mais acertada
medida deste governo. Essa é uma boa notícia. Porém o governo e a “Parque
Escolar” não cuidaram de acautelar a transparência do sistema de encomenda
dos projectos de intervenção. Nesta, como em outras louváveis iniciativas,
verifica-se que os interesses privados de poucos saem absurdamente
beneficiados com os interesses colectivos de todos.
Em nome da rapidez administrativa que a crise
exige pode a “Parque Escolar” contratar por ajuste directo os seus
projectistas. Podia ter criado um sistema de concurso expedito e rápido para
pré-seleccionar as equipas de projecto. Não o fez. Está no seu direito, mas
é uma oportunidade perdida. Optou por, nos termos da lei, contratar por
ajuste directo. Recomendaria o decoro e a razoabilidade que para os 107
projectos em curso contratasse as 107 equipas de projecto que se mostrassem
mais aptas. Em vez disso repetiu encomendas por ajuste directo a vários
arquitectos, havendo mesmo alguns casos escandalosos de acumulação de
encomendas num mesmo arquitecto. O Arq. Carlos Prata faz projectos de 6
escolas - artística Soares dos Reis, Aurélia de Sousa, António Sérgio,
Carlos Amarante, n.º 3 da Maia, D. Filipa de Vilhena. Os Arquitectos Camilo
Cortesão e Bak Gordon fazem 5 projectos cada um. A fazerem quatro projectos
está o atelier “Qualidade Urbana” de Julio Quirino e o atelier Ana Roboredo
& Joaquim Oliveira, Arquitectos. Com três projectos estão os arquitectos
José Gigante, Manuel Fernandes de Sá, João Paciência, Inês Lobo e Atelier
Central.
Conforme assinala o quadro anexo, fornecido
pela “Parque Escolar EPE”, com as autorias dos projectos das 107 escolas em
reabilitação, são vários os autores de múltiplos projectos. Não se vislumbra
o critério de selecção das equipas e escapa à compreensão a razoabilidade da
encomenda repetida e sistemática a alguns escritórios. Não questionando a
legalidade, pode e deve-se questionar a pertinência e a moralidade desta
forma de afectação de recursos públicos. Um projecto que tinha todas as
condições para ser consensualmente aplaudido pela importância estratégica
que tem, no curto e longo prazo para o país, sai manchado por este erro
grosseiro.
O Decreto-Lei 34/2009 é muito claro ao
esclarecer que “ A urgência das medidas excepcionais previstas não dispensa
o cumprimento das obrigações de transparência necessárias para conferir o
adequado grau de publicidade aos contratos públicos a celebrar. Assim prevê-se
a publicação obrigatória no portal da internet dedicado aos contratos
públicos de um conjunto de elementos referentes aos procedimentos de ajuste
directo, nomeadamente a identificação do adjudicatário, das demais entidades
convidadas a apresentar proposta, bem como o preço contratual.” Porém a
Arquitectura21 não encontrou nenhuma publicitação de quem foram os
projectistas – arquitectos e engenheiros - preteridos nos ajustes directos,
nem tão pouco o valor dos honorários relativos aos projectos. Essa é
informação que ainda estará por divulgar. Acresce que o mesmo decreto
acrescenta que “ esta publicação, …, é condição de eficácia do contrato
celebrado na sequência daquele procedimento”. Artº 2, n3.
Modelo de Financiamento
Ao longo dos próximos 30 anos o estado pagará
à “Parque Escolar” uma verba de cerca de 70 milhões de Euros anuais, que lhe
permitirão amortizar o serviço da divida relativa à construção dos edifícios
e ainda os custos de manutenção e conservação ao longo do seu tempo de vida
útil. Este modelo financeiro, embora comprometa as gerações futuras, tem no
entanto a virtude de o fazer para lhes construir melhores escolas,
antecipando o seu retorno social, ao mesmo tempo que garante o seu estado de
operacionalidade, sem no entanto aumentar consideravelmente as verbas
anualmente afectas à educação.
Para garantir a boa manutenção a “Parque
Escolar” estabelecerá contratos de 10 anos com empresas ou agrupamentos de
empresas de construção, tipicamente de pequena e média dimensão, mas com
capacidade técnica, passando-lhes a operações correntes num lote de escolas
geograficamente próximas. Este modelo substitui com vantagens a figura do
“faz tudo” que existia antigamente nas escolas, mas que por via das reduções
de custos foi desaparecendo. Desta forma a mesma equipa, afecta a várias
escolas, terá as várias valências necessárias nas áreas da electricidade,
mecânica e construção civil, o que seria insustentável manter para cada
escola.
Quadro resumo das intervenções:
|
Fase |
Nº escolas |
Nº alunos |
Área construção (m2) |
% Requalificação |
Investimento (milhões de euros) |
|
Piloto |
4 |
5.500 |
63.400 |
66 |
61 |
|
Fase 1 |
26 |
32.000 |
311.000 |
69 |
330 |
|
Fase 2 |
75 |
90.000 |
980.000 |
60 |
860 |
|
Fase 3 |
100 |
120.000 |
1.250.000 |
60 |
1.200 |
Fontes de
financiamento:
|
Banco Europeu de Investimento BEI |
44% |
|
Banca de Investimento |
20% |
|
Estado - OIDDAC |
15% |
|
QREN - FEDER |
14% |
|
Banco Conselho Desenvolvimento da Europa |
7% |
Semáforo:
Positivo:
O programa dá um importante passo para a qualificação dos espaços escolares
e por essa via para a formação das gerações futuras. É por isso, a melhor
medida politica deste governo. Promove a igualdade de oportunidades dos
diferentes alunos, a cidadania e a participação das escolas na comunidade e
vice-versa. Tem um modelo de financiamento equilibrado. Salvaguarda, de
forma quase pioneira em Portugal, um plano de manutenção e conservação ao
longo dos próximos 30 anos. Promove a cultura arquitectónica dos alunos
portugueses, permitindo-lhes experimentar obras contemporâneas de grandes
arquitectos. Promove a eficiência energética e a qualidade do ar dos
edifícios. Contribui, no curto prazo, para a reanimação da actividade
económica e a criação directa de 20.000 postos de trabalho.
Negativo:
A contratação por ajuste directo dos projectista, permitida nos termos lei
de excepção da contratação pública que decorre da emergência da crise
financeira, foi perniciosamente usada repetindo encomendas directas a alguns
gabinetes de projecto. Há vários casos de entregas de 4, 5 e 6 projectos
entregues ao mesmo arquitecto por ajuste directo, sem sequer serem públicos
os valores de honorários e as propostas preteridas. As muitas dezenas de
milhões de euros de honorários deviam ser objecto de maior liberdade de
concorrência entre os diversos 17000 arquitectos portugueses e sobretudo
objecto de maior escrutínio público. |