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"A estória do Presidente na Casa das
histórias”
(in ARQUITECTURA 21
#7,
Outubro de 2009)
No meio da espuma da campanha eleitoral,
entre argumentos e acusações cruzadas, ruídos gráficos e oratórios, coube em
destino à “Casa das Histórias Paula Rego” em Cascais, que o Presidente da
República se pronunciasse lá, enquanto participava na inauguração, sobre as
escutas que alguém, alegadamente a mando do governo, estaria a fazer à
Presidência.
Triste sorte desta obra, que se chamando
“Casa das Histórias” é inaugurada como palco de uma das mais grotescas
estórias de que temos memória, amalgamando presidência, jornais e Governo,
condicionando a campanha eleitoral e lançando uma suspeição generalizada
sobre todas as instituições do estado e sobre a idoneidade da imprensa (livre).
Apesar da ironia suprema da colagem do nome
da casa ao facto relatado, a obra, o seu arquitecto, a pintora e os seus
quadros, mereciam melhor sorte.
Como se pudesse remediar o que está feito e
devolver-lhe a dignidade que merece, procurando o que fica para lá da
espuma, e em jeito de manifesto, dedico este texto justamente a essa obra,
convidando o leitor a visitá-la.
A “Casa” fica situada junto à Cidadela de
Cascais, perto do Centro Cultural de Cascais e do Museu do Mar, ocupando os
antigos campo de ténis, que terão sido o vazio, entre as árvores
pré-existentes, que conduziu o gesto do arquitecto no desenho desta
implantação.
O conjunto da obra de Paula Rego (desenho e
pintura) e de Souto de Moura (arquitectura) pelo dialogo que estabelecem um
com o outro, qualificam este lugar e o visitante, colocando este último,
perante um universo de silêncio e paz a partir do qual pode mergulhar nos
ruídos grotescos da obra gritante de Paula Rego.
A escolha do arquitecto terá sido da própria
pintora que terá compreendido, a importância de uma casa depurada e discreta
para suporte da sua prolifera expressão plástica. O edifico de Souto de
Moura é por isso eficazmente essencialista no seu interior, mas ao mesmo
tempo suficientemente protagonista urbano, já que a sua volumetria e cor,
assinalam a sua presença no lugar, destacando-o da envolvente construída e
natural. O exterior do edifício é construído com um betão pigmentado – cor
de tijolo – que só é interrompido nos vãos, aliás muito escassos.
No “debate” que trava com Siza Vieira sobre a
iluminação do espaços museológicos, Souto entendeu aqui usar um sistema de
luz artificial, mais facilmente controlável do que o sistema da “mesa
invertida” – lanternim de Luz natural - usado por Siza, em Serralves. Esta
opção determina que todo o volume seja bastante fechado e introvertido. A
volumetria tipo “caixa” já muito experimentada por Souto de Moura em
projectos de habitação, é aqui entablada por duas chaminés piramidais de
grande dimensão, que remetem para o Palácio de Sintra ou para o Mosteiro de
Alcobaça, cobrindo a cafetaria e a livraria/loja do museu.
Tendo por cenário este edifício
necessariamente contido e muito domesticado, a obra exposta de Paula Rego, é
justamente por oposição, incontrolável e torrencial. As suas narrativas e
explosões pictóricas, recheadas de bichos e de figuras mitológicas, convidam
o visitante a uma constante viagem entre a realidade e a ficção, entre o
lugar da arquitectura e o não lugar dos desenhos. A todo o momento o
visitante viaja entre diferentes tempos, diferentes tensões. Personagens
comuns, em lugares comuns, em momentos épicos, numa dialéctica constante de
opostos. Um edifício de contraste a visitar. Um lugar de encantamento entre
a realidade e a ficção. Terá sido por isso que o Presidente o escolheu para
falar sobre as escutas?
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