"Arquitectura Popular de Consumo

(in ARQUITECTURA 21 #8, Novembro e Dezembro de 2009)

Se lhe pedir para enunciar os 10 mais distintos arquitectos portugueses muito provavelmente não inclui José Quintela. E no entanto ele será o arquitecto nacional que já projectou mais área construída – de acordo com as suas próprias palavras, mais de 5 milhões de m2.

Ele é o chefe de projecto da equipa da Sonae Sierra, antes Sonae imobiliária, e foi pela sua mão que passaram todos os projectos promovidos e geridos por este gigante mundial dos centros comerciais. Esta grande operação que começou com o desafio de desenhar o Centro Colombo, há cerca de 20 anos atrás, estende-se hoje a mais de 50 centros comerciais nas mais diversas geografias, entre o Brasil, Roménia, Alemanha, Espanha, Grécia, Itália e Portugal.

Apesar de tudo isto, será dos arquitectos portugueses menos publicados e conhecidos. E porque? Provavelmente porque é visto pela cultura arquitectónica dominante, como um pária que desenha edifícios menores – centros comerciais. Uma espécie de Toni Carreira da arquitectura nacional.  

Tal como este último desenvolveu ao longo de muitos anos uma linguagem e uma metodologia que visam dois desideratos: agradar ao povo e consequentemente obter grande sucesso comercial. O fito primeiro do projecto de um centro comercial desenhado por Quintela é estabelecer empatia com o utilizador, criar um espaço “amigável”, confortável e convidativo. Um ambiente confortável, de festa, propício ao consumo. Esta é uma das condições necessárias para que o edifício gere muito tráfego, para que consiga fixar os melhores lojistas, as mais altas rendas e assim o retorno financeiro que remunere os investimentos colossais que sempre implicam. 

O grupo Sonae, que se tornou hegemónico a partir da adesão de Portugal à então CEE, na década de oitenta, sobretudo da distribuição – com as marcas “Modelo” e “Continente”- cedo definiu o povo como seu alvo. O seu modelo de negócios assenta na massificação das vendas de produtos de qualidade a preços baixos. A democratização do consumo.

O tráfego gerado por essas grandes lojas, as áreas de estacionamento que exigiam, a escassez no mercado urbano de lojas de dimensão que permitissem albergar a crescente procura das novas marcas estrangeiras que vinham instalar-se nesta nova economia europeia e a visão de negócio da Sonae, levaram-na ao desenvolvimento do modelo dos centros comerciais que hoje se espalham pelo território. A José Quintela, um dos primeiros arquitectos portugueses a fazer um MBA na América, coube a tarefa de encontrar a linguagem de uma nova “arquitectura popular portuguesa” – a arquitectura do consumo.   

Num pais tradicionalmente pobre e pouco letrado, que mudou o seu perfil social e económico com o consumismo que lhe foi permitido nos anos oitenta e noventa pelas fundos de coesão  europeus, pelas baixas de taxa de juro e de uma forma geral pela liberalização da economia, o povo elegeu o consumo como o seu acto social mais importante. Como uma espécie de catarse pelos anos de pobreza e de subdesenvolvimento a que foi sujeito por uma ditadura que nos afastou do espaço de desenvolvimento natural a que tínhamos direito pela geografia, o consumo e sobretudo o acesso quase universal a bens de conforto como os electrodomésticos, representa a libertação do povo português e o seu regresso à condição de europeu desenvolvido. Nesta medida é óbvio e natural que os edifícios dos centros comerciais, enquanto novas catedrais do consumo, são elevados à condição de ícones da cidade, lugares de reunião da família, de passeio e de lazer.       

Entre eles, o Centro Colombo é o edifício mais visitado de Portugal. Em média circulam por lá mais de 20 milhões de pessoas por mês. Duas vezes a população de Portugal. Nenhum outro edifício nacional regista números de visitas sequer que se aproxime.  

E no entanto a elite intelectual portuguesa, historicamente muito próxima dos valores mais tradicionais da esquerda ou da direita mais conservadora, também na área da arquitectura, nunca aceitou a importância do consumo e a libertação popular que ele representa e por essa via talvez nunca tenha compreendido o seu povo. Rejeitam e desvalorizam os seus ícones e protagonistas.    

Nesta estrutural dialéctica entre o popular – universalmente escolhido pelo povo e geralmente pobre em qualidade – e o erudito – protegido por algumas minorias e algumas vezes pelo estado – existe uma economia liberalizada que confere a liberdade de escolha a cada pessoa e por essa via a primazia às maiorias – ao mercado. 

Estejamos nós condenados à mono-visão redutora das ditaduras do mercado, que sozinha parece determinar uma baixa da qualidade, ou à visão mais ou menos cega das elites que parecem habitar outro lugar e outro tempo, a arquitectura popular de consumo não pode ser ignorada sob risco de se ignorar o seu povo. Os portugueses, como os demais povos, gostam de consumir, porque isso os realiza materialmente, porque os eleva e porque lhes dá prazer.

 

 

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