"Centros Comerciais”

(in ARQUITECTURA 21 #8, Novembro e Dezembro de 2009)

A periferia habitada

Na década de 80, com a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia a 12, o pais passou a pertencer a uma economia aberta, no mercado mais desenvolvido do Mundo. Um país pobre, rural e profundamente iletrado, acabado de sair de um processo revolucionário e de se reinventar depois de descolonizar tardiamente o seu império, aderia ao espaço político e económico mais próspero e civilizado do planeta. Esse processo comportou mudanças abruptas em todas as áreas. Umas das grandes transformações que se deu foi a maior disponibilidade financeira das famílias para o consumo, por aumento dos seus rendimentos disponíveis, pelo acesso mais ou menos universal ao crédito a juros baixos e pela redução de vários preços que resultou do aumento da concorrência em vários sectores económicos antes dominados por monopólios ou simplesmente obsoletos. O consumo popular, universal, que foi desde os produtos alimentares aos electrodomésticos, telemóveis, computadores, até aos bens mais perenes como os automóveis e as casas será, por isso, das principais marcas da nossa jovem democracia. Os portugueses como todos os povos que viveram longos anos privados de conforto e prosperidade, como se passa agora com os povos do antigo bloco de leste, recém chegados à União Europeia, gostam de consumir porque isso os satisfaz e realiza. O lugar para esse consumo novo, de massas, não podia ser a cidade histórica. Porque o seu cadastro se rarefazia em múltiplas pequenas lojas, porque os comerciantes e as suas organizações empresariais eram muitos débeis e envelhecidas, sem conhecimentos de gestão ou cultura de empreendedorismo, porque as regras municipais eram conservadores e restritivas, porque os seus espaços estavam descuidados e devolutos, porque o valor das casas levou as pessoas a habitar a periferia, e porque apesar de tudo o valor fundiário do centro era ainda muito alto.

É neste contexto que surge o primeiro grande centro comercial urbano do país – as Amoreiras, desenhados pelo arquitecto Tomas Taveira -  e a Sonae instala as suas primeiras grandes superfícies de distribuição nas periferias das principais cidades. Estes espaços de grande dimensão, com grandes áreas de estacionamento, geraram tráfegos e hábitos de consumo que poderiam ser aproveitadas para outros negócios, de marcas nacionais mas sobretudo internacionais, que se pretendiam fixar nesta nova economia emergente. As grandes marcas de electrodomésticos de consumo, ou de pronto-a-vestir, por exemplo, procuravam lojas com áreas grandes em zonas de grande tráfego. Esses espaços só apareceram nos novos centros comerciais. É esta oportunidade e a capacidade técnica e financeira dos primeiros promotores que determina uma profunda mudança nos hábitos de consumo dos portugueses e consequentemente da forma e dos espaços onde consumem.

 

Modelo de gestão do espaço

O aspecto mais relevante dos centros comercias, mais do que a sua imagem, volume, materiais ou qualquer outro valor arquitectónico é a sua gestão. Ao contrário do que se passa no espaço público, por exemplo nas baixas das cidades, onde só há uma entidade macro – a Câmara Municipal – e uma entidade micro - o comerciante - nos centros comerciais há uma entidade entremédia que é a administração do centro. Esta entidade escolhe os lojistas, de acordo com um critério de coerência, coloca-os no lugar mais adequado, salvaguarda a qualidade do espaço e a manutenção do equipamento, garante a segurança, a higiene e o conforto, promove actividades e eventos que atraem público, promove a marca e o conceito, garante a concorrência e a diversidade de oferta, zela pelo sofisticação das montras e desenho das lojas e no final é remunerada pela renda da loja e por uma percentagem do seu valor de facturação, o que a qualifica como sócia do comerciante. Este modelo de gestão não tem que ser necessariamente uma singularidade dos espaços privados de utilização pública, pode também ser aplicado nos espaços públicos. O modelo privado de gestão pode ser aplicado, sem complexos ou demagogias, nos centros das cidades, através de empresas privadas, municipais, participadas, associações de comerciantes ou qualquer outra forma jurídica que permita a implementação de uma estratégia colectiva que consiga gerar tráfego bastante e consequentemente remunere os espaços para o viabilizar. As cidades não podem assistir impavidamente à degradação e desertificação dos seus lugares centrais sem mudar as suas práticas e regras. Não temos que ficar reféns da dicotomia comércio tradicional em espaço urbano versus centro comercial em periferia. O modelo dos nossos centros comerciais é um sucesso, entre nós e fora de portas. O modelo das nossas cidades é um fracasso. Em Lisboa, que perde ininterruptamente população desde 1985, vivem hoje menos de 500 mil habitantes. O Colombo tem 20 milhões de visitantes por mês. Não será possível aprender qualquer coisa com o modelo privado? Porque é que as pessoas escolhem estes lugares? O que será que as atrai?    

O projecto de centros comerciais

O desenho destes lugares é mais complexo e exigente do que possa parecer. Porém podem identificar-se as seguintes orientações: 

Compartimentação e distribuição apoiada em estudos de mercado muito sólidos. O desenho de arquitectura apoia-se logo no início, ou numa fase intermédia do processo, em estudos de mercado que identificam o tipo de lojas, as áreas necessárias e a sua mais correcta conjugação. O programa de um centro comercial de sucesso define com particular clareza quantos e quais dos espaços serão sapatarias, pronto-a-vestir, etc.. 

Seguro, limpo, confortável e artificial: Os espaços são em regra artificializados, porque são cobertos, fechados – pelo menos lateralmente - e climatizados. Estas condições permitem uma certa constância que aumenta a previsibilidade e a segurança do utente quando escolhe. Não há sazonalidade, frio, vento, calor ou neve, nos centros comercias. A temperatura e a luz são praticamente sempre as mesmas. A vigilância privada e a monitorização por vídeo, salvaguardam níveis de segurança física, pelo menos percepcionados pelos cidadãos, mais elevados do que no espaço publico onde essas tarefas dependem apenas das forças de segurança. Não há lixo no chão ou acumulado nos espaços colectivos como as instalações sanitárias, esplanadas das cafetarias ou simplesmente nas ruas. Uma grande concentração de recursos humanos é alocada a esta tarefa de que resulta um espaço limpo.   

Denso: o desenho destes lugares deve promover a densificação. Todas as decisões devem suportar a concentração dos visitantes nas circulações de modo a aumentar o tráfego e a consequente visibilidade da montra. Dai que a maioria dos centros comercias sejam volumes introvertidos, sem montras e janelas, já que as lojas se voltam para a rua interior.  

Amigável: Os espaços devem ser aprazíveis e convidativos, mas acima de tudo devem fazer o visitante sentir que pertence ao lugar. A procura de empatia e pertença é uma constante, que justifica as soluções de revestimentos, iluminação, etc…Os espaços devem ser tão confortáveis que dignifiquem os seus visitantes, sem serem luxuosos para não os intimidarem, nomeadamente os menos abastados. Não há lâmpadas fundidas ou buracos no pavimento. Equipas de manutenção trabalham durante a noite para manter o edifício em altos níveis de conforto e segurança. 

Circulação: O essencial do projecto é a distribuição dos visitantes ao longo de percursos lógicos e confortáveis, evitando zonas mortas ou de menor interesse, que naturalmente seriam remuneradas por rendas menores. A circulação é pensada de acordo com uma lógica que integra os diferentes tipos e escalas de lojas que se sucedem ao longo de uma rua. As circulações são em regra de dimensão generosa e tão iluminadas quanto possível, sobretudo por iluminação zenital, já que aumneta o conforto e reduz a condição de artificialidade, mantendo o visitante em contacto com as referências comuns como a luz solar. 

Áreas de refeição: Os restaurantes, cafetarias e diversos pronto-a-comer encontram-se agrupados em grandes áreas comuns e públicas servidas normalmente por mobiliário e esplanadas comuns, permitindo que cada membro do grupo ou família escolha a sua refeição diferentes, embora todos comendo à mesma mesa. Esta opção permite ainda concentrar todas a infra-estruturas de apoio: energia, exaustão, lixo, saneamento, logística e arrumação.  

Áreas de descanso: A pontuar os espaços públicos – as ruas e as praças normalmente cobertas – espalham-se áreas de descanso servidas por mobiliário confortável, quase doméstico, onde os visitantes se sentam a ler o jornal, a conversar ou simplesmente à espera de alguém que faz uma compra.

 

 

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