"Sizaless”

(in ARQUITECTURA 21 #9, Janeiro  e Fevereiro de 2010)

Assinalamos com este nº9, de Fevereiro de 2010, um ano da revista “Arquitectura 21”. No editorial do #1, em jeito de manifesto, propusemo-nos dedicar este espaço de exposição, reflexão e debate, às outras arquitecturas, para além das referências hegemónicas nacionais, à cabeça das quais, está naturalmente Álvaro Siza Vieira. Decidimos então que faríamos um ano inteiro de uma revista sobre arquitectura sem publicar um único projecto de Siza, Carrilho da Graça, Souto Moura,.., como se o “Jornal de Letras” pudesse passar um ano sem mencionar Saramago ou Lobo Antunes, ou até como se um jornal desportivo português se pudesse dar à ousadia de passar um ano sem mencionar Cristiano Ronaldo. Não publicámos uma notícia, um projecto, uma fotografia. Pelo contrário publicámos outros autores, outras arquitecturas, outras formas do exercício da profissão, outras paisagens. Decidimos nesse mesmo momento que em Fevereiro de 2010 faríamos um número da revista designado de Sizaless, (sem Siza), que assinalasse esse marco histórico que é a sobrevivência de uma revista de arquitectura nacional que afirma em manifesto que há mais arquitectura em Portugal para lá de Siza.

É pois com a legitimidade de quem trilhou esse caminho estreito, que hoje, pudemos em consciência afirmar que é verdade que há em Portugal mais arquitectura do que a do Siza, mas a dele é a melhor!

Não haveria por isso melhor maneira de assinalar um ano sizaless do que interpelar o próprio sobre a (sua) arquitectura, mas sobretudo, sobre o que ele descortina no que se faz para além da sua esteira e esfera de influência.

Na entrevista que nos concedeu no seu escritório, deixa-nos marcas de um sábio homem velho, muito experiente, que usa o privilégio que a vida lhe concedeu de viver muitos anos, retirando deles o que mais lhe importa para seguir melhorando, ensaiando e procurando. Como se numa conversa serena com o tempo e as suas marcas, usa os anos e os ensinamentos que eles deixam, a favor da sua obra. Como todos os maiores adapta-se para sobreviver. Renova-se e reinventa-se leal a si mesmo e aos valores que persegue de há muito. Encontra alternativas. Se o corpo já não o deixa ir, procura quem vá em seu lugar e faz maquetas grandes onde simula a obra e as suas surpresas.

No essencial a entrevista surpreende pela sua objectiva e lúcida leitura das circunstâncias quotidianas adversas e por vezes miseráveis, em que a arquitectura contemporânea acontece, em especial a que se faz em Portugal. Lamenta-se do espartilho a que os projectos estão a ser condenados, porque feitos por “especialistas” diversos, que não comunicam entre si, perdendo de todo em todo a sua coerência e identidade, “arquitectura não é só o exterior” desabafava. Queixa-se da falta de uma política nacional de arquitectura que valorize a qualidade e revolta-se contra o mercantilismo que preside à escolha dos projectos e dos arquitectos apenas pelo valor mais baixo dos honorários. Lamenta-se da submissão aos computadores se não devidamente acompanhados de desenho, e pelo tempo que este nos permite para pensar enquanto se lança cada linha no papel, porque desenho é pensamento. Mas encontra uma esperança, quase ingénua, para acreditar que as gerações mais novas, com mais mundo, que fizeram os programas “erasmus”, que viajam mais e vêm mais, possam encontrar outras formas e outros caminhos e fugir à fatalidade da arquitectura sucumbir aos mercados. Encontra animo na globalização que classifica de uma oportunidade com a qual os portugueses já aprenderam a lidar há vários séculos, classifica a diferença e a tolerância como valores a defender, e enquanto descreve o processo que testemunhou do aumento da paleta de soluções tecnológicas e construtivas, que decorreram da adesão à União europeia, não deixa de notar que persistem ainda hoje problemas de falta de habitação de qualidade como aqueles a que tentou dar resposta no principio da sua carreira, nos anos 70, nos projectos SAAL.

Depois de tudo, de todos estes anos e projectos, de conferências, prémios e livros, este homem olha com mágoa a desertificação dos centros urbanos, as propostas demagógicas e populistas de “revitalização” artificial com eventos episódicos mas que no essencial nada fazem para promover a habitação da cidade. No nosso país como no mundo as pessoas acumulam-se nas grandes áreas urbanas, mas por cá, infelizmente, não se fixam nos seus centros, em Lisboa ou Porto, mas nas suas periferias. As políticas de solos, as especulações, os desordenamentos ainda nos remetem para as nossas maiores debilidades urbanas estruturais. Continua a faltar-nos cultura e cidade.   

 

 

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