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"Garimpeiros Globais”
(in ARQUITECTURA 21
#10, "Macau 1999-2009" - Março/Abril de 2010)
Dez anos depois de
Portugal ter entregue a soberania de Macau à República Popular da China, a
20 de Dezembro de 1999, encerrando o Império pluricontinental que mantinha
desde os Descobrimentos, Macau é hoje um dos territórios mais prósperos do
Mundo, com uma taxa de desemprego marginal, de 3%, um crescimento médio do
PIB nos últimos anos de cerca de 10%, uma taxa de criminalidade muito baixa
e uma paz social, religiosa e étnica surpreendente, para um território com
uma das mais altas densidades populacionais do Mundo.
Acresce aos vários
indicadores sócio-económicos que podemos comparar, o gozo de uma assinalável
liberdade de expressão, reunião e manifestação, que a Lei Básica, negociada
entre Portugal e a China, fixou como direitos dos cidadãos de Macau para o
período de transição de 50 anos, até 2049, e que talvez seja o melhor legado
de Portugal em Macau.
A China, que visa
estrategicamente a reunificação de todo o território que considera seu,
absorvendo Macau e Hong-Kong primeiro e a Formosa (Taiwan) de seguida,
mostra-se empenhada em demonstrar ao Mundo e aos chineses de Taipé, o seu
respeito pelo princípio “um país, dois sistemas”, permitindo nestes
territórios “reunificados”a manutenção de um regime económico capitalista e
um regime político democrático, mais aprofundado do que era proporcionado
durante a administração portuguesa, no caso de Macau, e a britânica no caso
de Hong-Kong.
Esta condição de grande
sucesso económico, paz social e política, está no entanto, perigosamente
dependente da indústria do jogo - que representa cerca 70% da riqueza criada
- e da boa vontade política de Pequim, de quem tudo depende. A simples
inibição do jogo ou a mera diminuição dos vistos de visita aos seus
nacionais, determinaria a ruptura económica de Macau e com ela o seu
desmantelamento social e político.
O território de Macau, o
seu urbanismo e a sua paisagem física e social, são por isso mesmo, hoje,
como desde há várias décadas, mono-orientadas para o jogo e a sua logística
de suporte. Das redes de transportes, aos hotéis, à restauração, às casas de
penhores, ao imobiliário, aos equipamentos, etc.., tudo está orientado para
os seus 34 casinos que operam ininterruptamente, dia e noite, 365 dias por
ano, batendo a cada ano que passa novos recordes de facturação. Em dez anos
as receitas brutas dos casinos subiram de 18 mil milhões de Patacas para
cerca de 120 mil milhões – sensivelmente 12 mil milhões de Euros.
A novidade foi a
alteração da lei do jogo em 2001 e o fim do monopólio da concessão à
Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), permitindo a chegada de
novos operadores, sobretudo de Las Vegas, que ajudaram a criar escala,
transformando Macau na Meca do Jogo do Mundo, tendo em 2009 facturado cerca
de quatro vezes mais do que Las Vegas. Esta impressionante fábrica de
dinheiro, face a uma organização política acabada de nascer - pouco
preparada para regular e vulnerável à corrupção - promoveu uma avalancha de
promoções urbanísticas desregradas, casuísticas e desprovidas de qualquer
interesse arquitectónico, cultural ou outro. Da noite para o dia, partes
importantes da cidade, lugares de encontro cultural de diversos povos, com
muitos séculos de história e com camadas de arquitecturas que as
testemunhavam, transformaram-se em “não-lugares”, palcos anónimos e vazios
de significado, sem tempo e referências, de jogos de sorte e lucro fácil. O
dinheiro e o seu poder, destes actores económicos fizeram revogar planos
urbanístico, permitindo-lhes construir onde e como quiseram. Ninguém terá
acautelado o interesse comum. Ninguém terá salvaguardado a cidade. O
responsável político máximo por essa pasta, Sr. Ao Man long, Secretário do
Governo para as Obras Públicas, foi condenado a 27 anos de prisão por
corrupção contra autorizações de edificação.
A cidade de hoje mistura,
por isso, esse encanto poético secular que se pode cheirar em cada beco,
com os “pecados” urbanísticos do garimpe oportunista e inculto de quem não
sabe e não conhece a terra. A exploração intensiva deste recurso é
insustentável. Os locais sabem isso.
Passada a euforia do
dinheiro fácil, que aproveitou sobretudo aos garimpeiros mas pouco às gentes
da terra, a cidade, os seus dirigentes e o seu povo, talvez possam agora
compatibilizar desenvolvimento económico com desenvolvimento social, cultura
e literacia, qualificando a cidade e o seu modo de vida, aumentado a sua
atractividade aos visitantes - critica para o negócio do turismo e do jogo -
tirando partido, uma vez mais da condição singular de Macau enquanto
território de síntese e de co-habitação de culturas diversas. Ninguém como o
povo chinês, com a sua secular sabedoria e inteligência colectiva, está tão
preparado para fazer estas sínteses e resfriar os ímpetos gananciosos,
focando novamente o rumo no ponto certo. |