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"A Oportunidade”
(in ARQUITECTURA 21
#11, "Mapa de Jovens Práticas Espaciais" - Maio de 2010)
Entre os dezoito mil
arquitectos portugueses, cerca de dois terços - mais de treze mil - têm
menos de quarenta anos. Vivem, pensam e trabalham de uma forma diferente das
gerações que os precedem. São mais globais e informados; usam as ferramentas
da sociedade da comunicação para as tarefas mais quotidianas. Falam várias
línguas. Estudaram fora. Comem rápido… e são profundamente individualistas.
Filhos do cavaquismo dos anos oitenta e das teses de que cada um se safa a
si próprio, ainda não compreenderam que caminham alegre mas colectivamente
para a penúria!
A explosão do número de
escolas a formarem arquitectos e a consequente inundação dos mercados, a
desregulação, a globalização, a crise ou apenas ou primados das teses neo-liberais,
atiraram-nos para o desemprego, ou para práticas profissionais voláteis e
precárias; Sem garantias de rendimentos futuros estáveis não têm acesso ao
crédito à habitação ou ao mercado de arrendamento, pelo que, muito por culpa
disso, têm relações afectivas também precárias ou informais. Vivem com os
pais até mais tarde. Têm filhos mais tarde. Trabalham a prazo! Vivem a prazo!
A situação de penúria e
fragilidade profissional que vivem, a falta de vínculos, a pressão para
mostrar resultados, a frustração de um percurso escolar de sacrifício, sem
consequência profissional, promovem uma espécie de corrida para a frente sem
destino, sem rumo e sem esperança, de que a saída primeira é um novo ciclo
de formação – mestrado, doutoramento ou até pós-doutoramento. Surgem assim
verdadeiros profissionais das qualificações - académicos sem prática
profissional - e por consequência verdadeiros mercados de formação, que
aproveitam a sua disponibilidade e a falta de oportunidades profissionais.
O maior desejo da
maioria destas pessoas, algumas das quais com talentos e formações
académicas impressivas, é uma oportunidade de se mostrarem. Uma oportunidade
de projectar, de construir, de experimentarem a actividade para que se
prepararam e assim se realizarem como pessoas e como arquitectos.
Porém, uma economia
moribunda, que retrai novos investimentos, encerra todas as portas. Não
havendo actividade económica, não há construção, não há projectos.
O Estado, a quem cabia a
promoção da igualdade de oportunidades e a promoção dos talentos nacionais
em cujas formações tanto investiu, não só não promove oportunidades, porque
se retrai no investimento, como nos raros casos em que o faz, sublima a sua
vocação clientelar para oferecer aos seus caciques as oportunidades para
fazer. É assim no caso da Parque Escolar, no caso da Frente Tejo, como na
maioria dos programas de investimento público. O escândalo é tal que nem
mesmo nessas circunstâncias o Estado cuidou de garantir que os projectos que
encomendou de bandeja eram executados no respeito pelas normas mais básicas.
Em vários casos dispensou inclusivamente a exigência legal de que as
empresas não tivessem dívidas à segurança social, não cuidou de saber se a
mão-de-obra que enche esses escritórios - estagiária - era remunerada, se
tinha seguro de trabalho, etc.
Depois de abdicar de
conduzir uma política de arquitectura e de qualificação do território,
depois de se vergar aos interesses da finança e dos imobiliários
especulativos, promovendo a periferização da vida das cidades, o Estado
abdicou agora de garantir que a aplicação dos dinheiros públicos, cada vez
mais escassos, se faça com seriedade.
A Ordem dos Arquitectos,
manietada entre interesses, dívidas e crises de vocação, esboça uma
tentativa de reacção promovendo a emergência de uma “Política Nacional de
Arquitectura”, que muita falta faria, se não fôssemos colectivamente reféns
da falta de visão, da ignorância e do “Chico-espertismo”. A geração sub-40
se quiser ter oportunidades, tem que fazer por elas! |