"Do Projecto à Arquitectura

(in ARQUITECTURA 21 #12, "Projectos na Gaveta" - Set/Out de 2010)

Defendo uma tese atacável segundo a qual a arquitectura só se consubstância com a construção. Até lá temos projecto. Temos intenções, representações de espaços em duas ou três dimensões, com maior ou menor grau de realismo, de verosimilhança, de fantasia. As representações de hipotéticos (futuros) espaços arquitectónicos são já arquitectura? Defendo que não. São apenas isso: representações redutoras mais ou menos sofisticadas, mais ou menos eficazes, de propostas espaciais imateriais. 

Como todas as representações são aproximações pobres, por vezes enfabuladas do real, vistas segundo uma ideia platónica, uma perspectiva singular, de um real que só existe na cabeça do arquitecto e nos seus meios de suporte gráfico.  

A condição material - a construção - o sentido tectónico, multi-sensorial e multi-dimensional, conferem à arquitectura a sua essência de coisa útil e habitável por pessoas. A arquitectura só se realiza quando verifica esta múltipla condição: Material, útil, habitável e bela. Até lá estamos perante afirmações estéticas, exercícios de estilo, investigações, propostas, meios de ensaio, de estudo, de análise, instalações, escultura, pinturas, espaços virtuais, realidade virtual…, mas não de arquitectura. 

Ao contrário da representação ou até do projecto, a arquitectura depende de terceiros: um cliente que paga a construção; um lugar; um tempo; uma circunstancia; um regulamento; um autarca; Tudo realidades circunscritas que aportam realismo e pragmatismo à obra arquitectónica distanciando-a do mero exercício de estilo, forçando-a à verificação de valores pragmáticos de edificabilidade e uso futuros dentro de padrões de conforto, segurança e durabilidade que são hoje, inclusivamente, regulados por letra de lei.  

Do projecto à arquitectura vai toda a realidade. Todas as vicissitudes. Nos bons projectos estas circunstâncias do real são uma espécie de rugas que emprestam verdade à pele. Acrescentam-lhe textura e espessura. A realidade empresta uma patine de significado que o projecto jamais alcança. A construção, enquanto processo colectivo e participado pelos que pensam a obra, mas também pelos que a constroem, os que a habitam,.., é uma entidade francamente mais complexa e por isso interessante e estimulante do que a visão optimista, unitária e controlada do projecto. A arquitectura é por isso múltipla, contraditória, repleta de significados, de errâncias, porque espelho da vida das pessoas. Porque produto das suas sociedades. O projecto é mais puro, mais simplista, mais vazio, porquanto obra (exclusiva) do seu autor. 

Essa condição exigente, ética e socialmente responsabilizante da arquitectura, vincula-a ao real, mesmo que pela sua negação ou caricatura, capturando-a para as circunstancias que a contextualizam.  

Em épocas de crise como a que vivemos, perante o marasmo económico, não há oportunidades para a arquitectura, porque não se constrói. Mas por oposição, há mais tempo livre para a reflexão sobre o processo da arquitectura, sobre o seu lugar político ou social. Sobre a sua forma e materialidade. Sobre a sua linguagem. Sobre o projecto.

Usemo-lo então para pensar e debater.

Estes podem ser tempos de refundação de ideias e de valores.

 

 

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