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“"Geração
à Rasca" *
(in ARQUITECTURA 21
#13,
Novembro/Dezembro de 2010)
Vivemos mais
um período eleitoral na Ordem dos Arquitectos. As listas que se apresentaram
são protagonizadas por arquitectos “seniores”, lideradas pelos meus amigos
João Rodeia e José Charters Monteiro. Outros movimentos de opinião como a
“maldita arquitectura” posicionam-se para condicionar o debate e a reflexão
que deve haver a propósito das eleições, mas não se candidataram. É pena.
Acredito que
a tremenda mudança que se verificou no perfil do arquitecto, pela entrada
massiva de novos licenciados na Ordem, deve levar à mudança de protagonistas
dos órgãos representativos da classe e assim da sua atitude, da sua agenda,
das suas políticas e do seu “modos operandi”.
Os grupos de
arquitectos que se têm associado para contestar a precariedade ainda não
ganharam consciência de classe ou de grupo e por isso talvez lhes escape o
poder que podem deter, e que resulta da circunstância de que a máxima “um
Homem, um voto” lhes confere a capacidade de ditarem a agenda, porque são
mais. São muitos mais. Os sub 40 são hoje mais de 2/3 dos inscritos na Ordem.
E por isso podem mandar. Podem ter o Poder. Podem. Se e quando quiserem.
Bastará para
tanto que joguem o jogo democrático e institucional com as regras dos
crescidos. Bastará que passem do discurso fácil e muitas vezes demagógico e
panfletário da contestação, para o discurso mais difícil da proposição.
Bastará que troquem as sessões inconsequentes de tertúlia por manifestos
programáticos, que congregam vontades e disponibilidades dos seus pares.
Será seguramente fácil para eles gerarem empatias entre os demais excluídos
da vida. A profissão desde sempre sectária e exclusivista, assume por estes
dias de escassez e de crise, formas de clube restrito que deixa à porta a
grande maioria dos que a procuram. Do lado de fora do vidro ficam moles de
famintos que assistem, por enquanto, ao manjar refastelado de alguns, poucos.
Cada vez menos e mais gordos. Por quanto tempo?
A história
ensina-nos que é apenas uma questão de tempo. Os níveis de assimetria na
distribuição de oportunidades e de riqueza são tais que não faltará muito
até que uma sublevação, ainda que ordeira e democrática, tome conta dos
destinos da classe.
Aparentemente
o que os une é a luta contra a precariedade. Queixam-se que as empresas de
arquitectura ou lhes barram as oportunidades ou, quando lhes dão trabalho, o
fazem em condições de remuneração miseráveis, contra recibo-verde. A
precariedade como a mãe de todos os males. Sobre esta matéria os actuais
dirigentes da Ordem, ao longo do último mandato, fizeram zero. O tema não
lhes diz respeito. Não são sensíveis. Entre os que ocupam o poder e os que o
contestam há pelo menos uma geração de diferença. Esta Direcção da Ordem
ateve-se aos temas da grande política como a revogação do 73/73, mas foi
insensível ao tema dos estágios ou da precariedade que os mais novos
reclamam. Esta Direcção da OA foi incapaz de, no momento próprio, atacar o
Governo, pela enorme violação à livre concorrência que constituiu a
encomenda pública por ajuste directo na “Parque Escolar” ou na “Frente Tejo”
ou nos “Planos Polis”. Ao silenciar-se perante estas soluções beneficiou os
arquitectos que a apoiaram no passado e, estou certo, a continuarão a apoiar
no futuro, mas deixou arredados da profissão todos os demais que se queriam
sentar à mesa. Por isso, está naturalmente impossibilitada de falar por eles
e de os representar. Por que não só não sente os seus problemas, como em
parte é co-responsável por eles.
O desafio que
se depara aos mais novos arquitectos é demonstrar que é possível, numa
economia periférica e débil como a nossa, que no melhor dos cenários
crescerá 0,2% em 2010, uma empresa de arquitectura gerar uma continuidade de
encomenda que permita ter colaboradores contratados sem termo, pagando-lhes
em condições de dignidade, que, segundo os próprios, significa pagar acima
de 1000 euros mensais. Será possível? Eles acham que sim. Eu ainda não
consegui! Mas eles também ainda não o demonstraram.
O desafio que
se depara a estas pessoas é o de enfrentarem as incertezas dos nossos tempos
propondo soluções novas e correndo riscos. Correndo o risco de propor.
Correndo o risco de criar empresas que funcionem como dizem. Correndo o
risco de liderar a Ordem como sugerem. Quando largarem o “bem-bom” do sofá
de casa dos pais farão a diferença. Mas terão que arriscar dormir à chuva!
(*) Apropriação livre do
título do editorial do Público, de Vicente Jorge Silva, em 1994, sobre a
“Geração Rasca” a propósito da contestação à lei das propinas de então e à
PGA. A expressão “Geração à Rasca” foi já, entretanto, usada diversas vezes
em texto publicados na imprensa e na blogosfera.
Penso que se mantêm cada vez mais válida! |