"O circo está de volta à cidade"

(in Arquitectura 21 #6: Setembro 2009)

  

Talvez poucos tenham dado por isso, mas em 2005 a jovem democracia portuguesa travou uma importante batalha nas eleições autárquicas, porque muito mais do que projectos políticos diversos, foram a votos comportamentos, éticas e morais distintas. Pela primeira vez em muitos anos os então candidatos a braços com a justiça, foram alvo de uma intensa barreira de fogo mediático, os partidos políticos por quem sempre tinham concorrido, retiraram-lhes o apoio e, apesar de tudo isso, concorrendo apenas com “a sua pele”, ganharam e, em alguns acasos, por maiorias muitos expressivas. Valentim Loureiro foi mesmo o candidato mais votado de todos os 308 candidatos a presidente de Câmara. Teve todos os vereadores da Câmara de Gondomar.

Numa eleição em que o que estava em causa era saber se essas pessoas seriam, apesar de tudo, novamente apoiadas pelos seus eleitorados históricos, as suas vitórias devem ser atentamente interpretadas. Sem falsos paternalismos, mas também sem ingenuidades.

 

O municipalismo é, objectivamente, um dos maiores sucessos do Portugal democrático. Apesar da ideia generalizada de que há grande corrupção e tráfico de influências nos pequenos poderes das Câmaras, é também um facto que a esmagadora maioria dos eleitores portugueses, quando chamado a votar, renova o apoio aos seus candidatos em funções. Excepção feita aos manifestamente inaptos, todos são reeleitos. Este facto é indiferente à cor política ou à região do Pais.

No meu ponto de vista esse fenómeno explica-se sobretudo por três ordens de razão:

1) O forte desenvolvimento dos equipamentos e infra-estruturas dos nossos municípios desde o 25 de Abril - como sejam as escolas, as estradas, os parques, o saneamento, a recolha de lixo, os centros de saúde, os campos de desporto e de uma forma geral o apoio às populações, nomeadamente idosos e às crianças;

2) A valorização dos solos de cada um. Ao transformar solo não edificável em edificável, cada autarca atribui riqueza a cada dono de terra no nosso pais;

3) A aparente dissociação que o eleitor faz entre o que lhe vai mal na vida e a responsabilidade dos autarcas. Os eleitores portugueses acham que as suas desgraças como sejam o desemprego, a (falta de) saúde e justiça, a crise económica, a insegurança, etc.. são da responsabilidade do governo da república. Penalizam por isso o governo nas eleições legislativas quando acham que a vida lhes corre mal, mas premeiam os autarcas pela melhoria da sua qualidade de vida, já que lhes atribuem o mérito dessas melhorias. Os portugueses corroboram nas urnas a máxima muito apregoada pelos autarcas de que um euro gasto numa autarquia é mais bem gasto do que pela administração central. Um pouco à semelhança do apoio que recebe na palestina o “Hamas”, pela seu trabalho próximo das populações, também, entre nós, e salvaguardadas as diferenças, os autarcas são reconhecidos pelas populações que servem. Esta premissa escapa às elites de Lisboa que classificam levianamente os eleitores destes lugares como mentecaptos ou simplesmente como parolos.

 

Escrevi, na ressaca dessa eleição em 2005, que o poder politico em geral e a assembleia da Republica em particular passavam a ter a responsabilidade de dar aos políticos honestos a possibilidade de compatibilizarem a legalidade com a eficácia, já que as dificuldades da administração publica impelem o eleito a optar por uma delas. Esse apertado colete-de-forças que impede a boa governância da coisa pública, beneficia os que se estão nas tintas para o cumprimento da legalidade e da ética e que, por cima de toda a folha, fazem obra! No respeito pela velha máxima de que “rouba mas faz”, os eleitores têm preferido esses, que apresentam resultados, aos outros, que cumprem a lei. A culpa é por isso de todos.  Dos que governam dessa maneira, dos que os elegem, da falta de justiça que permite que essas práticas se arrastem impunemente durante tantos anos, mas também dos legisladores que, em nome de uma suposta transparência e rigor, encurralaram a administração publica numa teia tão densa e ineficaz que de cada vez que alguma coisa se quer mesmo fazer se criam regimes jurídicos casusisticos como sejam a Expo 98, o Polis, a Parque Escolar, etc… No momento em que se monta novamente o circo em Oeiras, Felgueiras, ou Gondomar é bom na cair em resposta fáceis ou arrogantes. Quando se liga a ventoinha a merda salta para todo o lado! 

 

 

 

 

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